terça-feira, 15 de março de 2011

Darren Aronofsky - David Lynch passando a coroa...

Nunca vi uma declaração oficial de Darren Aronofsky a respeito de David Lynch, nunca li nenhuma matéria em que alguém comentasse a influência deste sobre aquele. Mas bem, seguindo um raciocínio bem simplista, Lynch tem 62 anos, Aronofsky tem 42. (¬ ¬') Suponho que haja uma relação, embora não muito divulgada, de mestre e pupilo entre eles. Digo isso porque nunca tinha visto um filme de Darren Aronofsky, até semana passada, quando Monize (obrigado, Monize) sugeriu uma sessãozinha aqui em casa com Requiem for a Dream (Réquiem para um sonho), de 2000.

O filme retrata vícios. Simples assim. Vários tipos de dependência, cada uma com suas particularidades. Conhecemos Sara Goldfarb (Ellen Burstyn), uma senhora cuja vida se transformou em tudo que ela mais temia, e por isso alimenta fantasias de participar de um programa de TV, que na verdade, parece ser fruto de sua imaginação (muito esquisito esse programa, por sinal - parece uma versão de Tim Burton dos 5 Minutos de Ódio retratados por George Orwell em seu 1984). Para caber num antigo vestido vermelho, ela toma remédios para emagrecer e acaba se tornando viciada. Enquanto isso, seu filho Harry (Jared Leto, muito convincente) viciado em heroina, busca establidade financeira enveredando na revenda de drogas. Marion (Jennifer Connelly) e Tyrone (Marlon Wayans), namorada e amigo de Harry respectivamente, completam o quadro de personagens de apoio, drogados como ele.

A grande sacada do diretor nova-iorquino nascido no Brooklyn, é se colocar atrás da perspectiva perturbada dos personagens. Exemplo, as cenas de uso de drogas são feitas com muito estilo - shoots super rápidos mostrando as etapas da aplicação e reação do corpo ao efeito da droga. Só vendo mesmo pra se convencer de como uma situação já tão abordada no cinema, muitas vezes de forma dramática e penosa, pode se renovar com a criatividade de diretores como este. As cenas finais (não é spoiler) são simplesmente uma das coisas mais alucinantes que eu já vi num filme. Os quatro personagens passam por situações de provação extrema, pontos agudos de sofrimento até onde os quais seus vícios podem levá-los. A música frenética, os efeitos sonoros perturbadores, os enquadramentos no rosto dos atores, quase assumindo um tom de filme de horror se unem pra compor uma atmosfera super densa e inquietante. Uma coisa de ranger os dentes!

Percebe-se claramente que Aronofsky tenta fazer o espectador sentir a agonia que eles sentem. E consegue. Exatamente nesses momentos é que uma excentricidade Lynchiana explode na tela. Aos meus olhos, pelo menos, a influência é clara. Especialmente, em algumas sequências meio oníricas que irrompem de vez em quando. Pode ser também simplesmente um daqueles casos de gostos em comum (embora eu não acredite que este seja um, dada a extrema peculiaridade do cinema de Lynch, tido por muitos como algo sem precedentes), mas se for o caso, no mínimo a semelhança, é inegável.

Uma diferença crucial, porém, se estabelece: em filmes de Lynch, como Inland Empire (O Império dos Sonhos), Lost Highway (A estrada perdida) e Blue Velvet (Veludo Azul) - sendo este último, o mais "normal" dos três - todo absurdo que ele estampa na tela, todo o surrealismo são a estória. O fator nonsense está, todo ele, imbuído na trama. A estória É, ela própria, a visão caótica de Lynch, acima de qualquer outro aspecto do filme. E não um recurso. Para Aronofsky, o absurdo é um recurso. Não mais que isso. O filme não é, como dizem, "difícil de entender", é bastante direto até. A abordagem lynchiana de Darren apenas enriquece o filme, mas não ultrapassa essa linha. Sem querer desvalorizar a riqueza do filme, ou muito menos vincular qualidade de roteiro a nível de complexidade, Requiem for a Dream pode parecer um "Lynch para iniciantes", por mais infame que essa afirmação possa ser - rsrsrs.

Agora, como eu comentei aqui com o pessoal (Mona, Monize e Ian), a única coisa que eu não digeri direito foi a cena em que Sara, lá pela metade do filme, já completamente tomada pelo impulso de engolir suas pílulas coloridas, tenta conter seu desespero, contando a seu filho porque quer tanto emagrecer e participar do tal programa. Sua fala, extremamente didática nessa hora, estraga um pouco a impressão que a personagem tinha deixado sobre si mesma, de forma sutil, até esse momento. O texto explica as motivações de Sara Goldfarb de uma forma exageradamente clara. O espectador fica com a sensação de ter tido sua inteligência subestimada.



Entretanto, eu vir aqui e dizer que isso foi a única coisa que não gostei do filme, não é inteiramente verdade - não foi bem isso que eu disse, rsrsrs. Não foi, porque seria um puta tiro no pé, eu achar descartável justamente a cena que provavelmente garantiu a indicação de Ellen Burstyn ao Oscar de melhor atriz de 2001. Aí, amigo, é que você tem a oportunidade de assistir a uma atriz com A maiúsculo, no nível de uma Fernanda Montenegro ou de uma Meryl Streep, em ação. Nesse longo monólogo, é difícil conter a emoção que Ellen provoca com seu sorriso trêmulo, o olhar devastado pela solidão, misturados aos trejeitos de desequilíbrio mental já evidente. É de arrepiar! Eu tô aqui, como dizem, "me arrepiando só de contar". Não é qualquer ninja que consegue não, só samurai mesmo como ela.

O filme não vem postular contra as drogas de forma romântica, mas mostra até que condição um vício pode levar um indivíduo, tudo sem nenhum tipo de "eufemismo visual". Você que é sensível, cubra os olhos nas partes mais perturbadoras.

Não sei se é um filme que agrada com facilidade. Só sei que depois dele, Cisne Negro terá que ser um senhor filme para conseguir deixar em mim um impressão ainda melhor sobre Darren Aronofsky. O cara manja!


27 comentários:

  1. Opa, esse, pela descrição, vai cair no meu gosto. Tá na lista! (se bem que eu acho que você me convence à assistir até 2girls1cup se tentar viu Ivan)

    Tô acompanhando o blog de pertinho, vai postando mais aí veio!

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  2. Hahahahahahaha - esse eu n posso pq nunca vi. Nem vou ver muito provavelmente.

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  3. Ivan cara...Tudo haver o que você falou! Tenho a lembrança de que quando eu assisti esse filme a primeira vez, fiquei achando forte e ao mesmo tempo sutil...a impressao que dá é que essa reação é a intensão exata! O exagero ou absurdo que você citou como recurso,me parece que vai além dessa função...É praticamente o foco do filme, a "sutileza do exagero"...a realidade da sensação provoca não só o "ranger dos dentes", mas tambem sensações de apreensão e descontrole...Vamo marcar pra assistir o "Cisne Negro" ... ;) Abraço e parabens por mais essa analise!

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  4. Abordagem interessante. Nunca assisti ao filme, mesmo tendo ouvido falar bastante do mesmo. Já tinha visto Leto atuando (também como viciado, mas dessa vez em cocaine) junto com Nicolas Cage em O Senhor das Armas, e notei que ele faz um ótimo trabalho nesse tipo de papel (porque será?!;x). Bom, vou baixar o filme, já que sua crítica é tão boa.
    OBS: Depois escuta a banda de Leto (30 seconds to mars). É boazinha;D

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  5. "Uma coisa de ranger os dentes!"

    Concordo extremamente, até porque aconteceu comigo! Rsrs

    PS:Entusiasmada pra ler mais, o que você escreve, Ivan!

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  6. Parabéns cara ! como não assitir o filme ainda, não tenho muito o que falar!Porém a parte textual ta otima,bem escrito e bem detalhado! Vlw...

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  7. Marcell

    Vamo sim! Deve ser bom. E assim, quando me refiro ao "absurdo", é porque os filmes de Lynch, não sei se você já viu, mas são MUITO impenetráveis, bicho. Não que sejam difíceis de entender - na verdade, você tem a nítida impressão de que não tem NADA pra entender - rsrs.

    Já Aronofsky se utiliza disso mas não "compromete" a clareza da trama.

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  8. Danillo

    Verdade, cara. Ele está em "O Senhor das Armas" com Cage. Não lembrava. Eu lembrava dele em Alexandre com Colin Firth, fazendo papel de... namorado dele.

    "e notei que ele faz um ótimo trabalho nesse tipo de papel (porque será?!;x)" - kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Pior que é, né?

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  9. Hein, Nize, aquele final é TENSO né? - kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  10. Diego

    Oh, rapaz, muito obrigado! Assista o filme mesmo que O BAGULHO É LOUCO!

    (trocadilho infame não intencional... ¬¬)

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  11. Apesar de não ter visto o filme, percebi de cara que os seus comentários estão completamente harmônicos com o corpo do filme e com o que ele realmente deve transmitir. E isso já se confirma de maneira transparente quando vi o trailer. Em particular me chamou muita atenção por se tratar de temas envolvendo drogas e insanidade mental. Temas além de polêmicos e muito interessantes, apresenta personagens de emoções de extrema complexidade para serem interpretados.
    Outra coisa, de fato o filme dever ser uma obra prima já que pelo trailer me deu um misto de sensações como de repulsa e medo , deixando no ar um clima macabro. Gostei muito desse post, e parabenizo por tornar o blog cada vez mais "espetaculoso" :P . Abraço.

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  12. "parabenizo por tornar o blog cada vez mais 'espetaculoso'"
    hehehehehehe - Vlw, Kekas.

    E realmente, isso te pega um pouco de surpresa. Porque você ali vendo um filme que a maioria poderia classificar como drama, e de repente surgem certas cenas que são... macabras mesmo! Você usou a palavra certa. Flerta um pouco com o cinema de terror, sem dúvida.

    Se foi de propósito, não sei. Deve ter sido.

    Pra quem já viu Cisne Negro, dele tb, e aí, como é? É legal mesmo?

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  13. Zito,também fiquei curioso em ver o filme. Agora preciso conhecer mais o trabalho de Aronofsky e Lynch, a quem o seu post faz jus.
    Ah, muito rico o seu blog, viu, Zito?
    Go ahead!

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  14. I'm going! :D

    I hope you drop by as often as you can!

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  15. Fiquei com muita vontade de assistir a esse filme!!! Só o seu texto já conseguiu me envolver bastante.. Muito booom!!!

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  16. Ivan, formidável a resenha! Já tinha vontade de ver o filme só pelo elenco, e depois do texto, então, agora é que vejo mesmo!
    Parabéns!

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  17. Valeu, Tati! Assista mesmo! Vale a pena! :)

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  18. Bom texto Ivan!!! Ja tem um tempo que vi esse filme, vi somente uma vez. Um bom filme, belas atuaçoes como vc mesmo relata. Porém, o que mais gostei no filme foi o tratamento dado a discussao sobre dependencias, tirando o foco somente das drogas e mostrando como outras condutas nossas podem entrar num processo de dependencia.

    "O filme não vem postular contra as drogas de forma romântica, mas mostra até que condição um vício pode levar um indivíduo, tudo sem nenhum tipo de "eufemismo visual"."

    Há outros filmes que trabalham numa problemática das drogas, proxima a esssa do Requiem. Fica a dica: Trainspotting (um dos primeiros filmes (senao o primeiro) do Ewan McGregor; Medo e Delirio em Las Vegas, onde temos otimas atuaçoes de Johnny Depp (irreconhecivel) e Benicio del Toro; um filme nacional chamado A Concepção, q tem a participaçao do Matheus Nachtergaele; e um documentário chamado Grass, que traça um histórico da proibição da maconha nos EUA.

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  19. Helmir, como sempre, contribuindo muito! :D :D

    Acredita que ainda não vi nenhum deles? o.O
    Vou ver todos em breve.

    Grande abraço, brother! E obrigado pela presença!

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  20. Caramba, Helmir! Sabia que já tinha ouvido falar no Trainspotting! É do David Boyle!! Um dos meus favoritos! Mas aind anão vi tudo dele.

    Já viu Sunshine (Alerta Solar)? E aquele "Contágio" que o cara acorda num hospital e percebe que a cidade está completamente vazia? É sobre um vírus e tal..

    o cara é Cilian Murphy, que fez Sunshine tb, e fez o Espantalho em Batman Begins.

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  21. É sempre bom passar por aqui...eu tenho um blog que anda desativado, ja faz uns 2 anos, onde eu tecia impressoes, analise e estranhamentos sobre coisas que via no dia-a-dia..mas em breve pretendo traze-lo de volta a vida, por enquanto é inviavel.

    quanto aos outros filmes do D. Boyle, nao vi nenhum desses citados por vc. Creio q entrarao na extensa lista de filmes a ver hehehe.
    Putz, se eu tivesse por ai eu te emprestava os q eu citei, tenho todos. Mas procura, q vale a pena ver.

    abraçao!!!

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  22. Mande o link do seu aí, Helmir, pra eu ver o que você já fez lá! Abraço.

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  23. Amigo, gostei muito de sua crítica.
    Eu sempre fui fã do Aronofsky e achei uma tremenda injustiça ele não ter ganhado o Oscar de melhor diretor, muito menos o seu filme (Cisne Negro).Eu já assisti ao Cisne Negro, e confesso a você que coloco os dois no mesmo patamar. O desespero, a loucura, a obsessão são alguns temas presentes neste grandioso filme. Fico impressionado com a capacidade que Aronofsky tem de mexer com os nossos medos, com os nossos impulsos. Eu baixei toda a trilha sonora do Filme Requiem for a Dream ,feita por Clint Mansell, grande parceiro de Aronofsky. Acabei de baixar também a espetacular trilha sonora do Cisne Negro. E adivinhe quem é o compositor? Clint Mansell novamente. Seria até injusto falarmos do Aronosf sem citar o Clint Mansell, já que as trilhas de seus filmes nos dão a sensação de incômodo, tristeza e pavor. Um grande abraço, amigo. David Perdigão

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  24. David, com certeza. Depois saí dando uma pesquisada nos outros trabalhos de Mansell e o cara é fera mesmo! Inclusive eu tenho a trilha sonora de Requiem toda em mp3 aqui tb!

    Muito obrigado, cara. Apareça sempre!! :D

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  25. É, Ivan... Tudo bem que a palavra "Réquiem" no título já entrega que rola uma desgraça no filme, mas a coisa é mesmo aterrorizante! O filme é inesquecível! O Cisne Negro eu achei apenas bom. Quanto ao Lynch, eu vi Mulholland Drive (Cidade dos Sonhos) e apesar de ser fragmentado e tudo mais, it DOES have a plot, embora essa trama seja "turbinada" pelo absurdo todo. Um abraço e obrigado pelos filmes!
    (Rússeo)

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