domingo, 29 de maio de 2016

Não Deixe Suas Opiniões Políticas te Transformarem num Canalha

A polarização política no Brasil está chegando a um ponto inconsequente. Têm dividido opiniões em coisas que todos deveriam pensar da mesma forma. Sem relativismos, sem problematizações (e olhe que eu sou de humanas!).
Se uma pessoa é estuprada, não há debate, não há opinião possível. É abominável e pronto. A garota estuprada poderia, no momento do ato, ter estado fora de casa a mil anos, nua, no meio da rua, com duas AK47 nas mãos, bêbada, drogada, ou mesmo ~pedindo~ pra que fizessem isso com ela. Alguém deveria ter dito "ela não sabe o que está fazendo, vamos levá-la pra casa". Não é sob esse tipo de circunstância que se faz sexo com alguém. Se isso te parece absurdo, você é parte do problema, simples assim.
Quando um homem tem seu celular ou relógio caríssimo roubado, não se critica o consumismo que o leva a gastar R$4000 num iPhone ou R$400 numa camisa Ralph Lauren. Critica-se exclusivamente a tal criminalidade aparentemente inerente aos pobres, tudo da forma mais essencialista, maniqueísta e perversa possível. Essa é a prova fatal de que a violência é menos grave quando atinge uma mulher ao invés do seu patrimônio.
Ou não?
Aparentemente vale tudo pra escapar do cerne das questões quando elas realmente ameaçam uma estrutura qualquer, basta que esta seja confortável para um determinado grupo. É o que acontece quando querem transformar o debate sobre o golpe e a ditadura militar no Brasil num problema linguístico. Não importa se foi "revolução ou golpe", "regime ou ditadura", importa que pessoas foram torturadas, mortas, levaram choque em sua genitália, sumiram das suas famílias pra sempre, pessoas não podiam se expressar, havia corrupção ~sim~ e a economia foi milagrosamente para a lama. Isso é maior que qualquer embate léxico.
Fico de cara.
Em 2016, não basta entender o que significa "cultura", o que quer dizer "estupro", mas não conseguir traduzir socialmente o que significa "cultura de estupro", e com isso transformar uma questão séria e ~real~ numa questão idiota de vocabulário. Covardia ou cinismo? Estudar e querer saber de verdade ainda valem a pena. A internet é um oceano de água doce com pessoas morrendo de sede na praia.
A polarização política do Brasil chegou a um ponto que, se uma garota é estuprada por 30 caras, e as feministas se revoltam, bem feministas geralmente são de esquerda, e esses papos de direitos humanos são coisa de maconheiro, eu não posso concordar com um missangueiro petralha. Então a culpa é da menina.
?
As duas perguntas inevitáveis são:
1) O quanto menos culpa a menina teria se o shortinho custasse R$500 e ela fosse abordada voltando pra dormir na zona sul?
2) Porque será que causas como a das mulheres estupradas encontram afago no posicionamento de simpatizantes acéfalos dessa esquerda desmoralizada, e apenas pau e pedra entre os defensores da família e bons costumes?
A quem quiser continuar achando que os temas de redação do ENEM não passam de doutrinação descarada e desnecessária, ou quiserem mais uma vez, transformar a pergunta 2 numa questão semântica sobre a relação controversa "história da esquerda x direitos humanos", tudo da forma menos pragmática, menos 2016, menos contextualizada, mais erudita, mais simplista, mais kataguirística, mais bolsonarística possível, fiquem à vontade. Só não deixe suas opiniões políticas te transformarem num canalha.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A Metamorose de Kafka


Obras confessionais são comuns na literatura. Esta seja talvez uma das mais poderosas. O introspectivo Franz Kafka, grande influência do brasileiro Murilo Rupião e tantos outros grandes nomes da literatura fantástica, gravou seu nome na arte da narrativa com esta novela de 1912, que conta a estória de Gregor Samsa que, numa manhã comum, acorda transformado num grande inseto.

A inexplicabilidade dos acontecimentos são parte de seu estilo e compõe, em grande parte, todo um corpo de lógicas alternativas à nossa realidade que o leitor deve assumir – aceitar – logo nas primeiras linhas.


Confessional porque através de todos os desdobramentos da narrativa e por entre detalhes descritivos (um prato cheio para analistas e pensadores por décadas a fio), revelam-se de certa forma, estórias do próprio Kafka, ou uma estória de vários Kafkas se digladiando dentro da mesma mente. Sua relação particularmente conflituosa com o pai, sua conturbada vida afetiva, entre outros aspectos inevitavelmente refletidos em seus escritos, se põem sob a ótica extremamente auto-analítica do autor, apesar da natureza obviamente fabulosa do romance. No caso desta obra, especialmente, com um senso de inventividade mais maduro e “enxuto” que em alguns de seus trabalhos anteriores.

Através da profundidade do olhar algo familiar de Kafka à trajetória de Samsa, o inseto repulsivo em que ele se transforma, trancado num dos quartos do apartamento (e trancafiado também pela recusa de sua família em aceita-lo nessa forma), é compreendido através um número de perspectivas, desde uma reflexão sobre dinâmica familiar até uma observações sobre comportamento sexual.

De todo modo, antes mesmo de nos atermos a quaisquer especulações a respeito da ligação do próprio autor com sua obra, a leitura d’A Metamorfose já é um deleite, tanto por ter em mãos a obra-prima de um gênio em plena forma, como pelas perguntas por ela erguidas. Qual o verdadeiro significado da solidão? O quão profundos são os laços familiares e até que ponto eles superam os instintos de auto preservação de nós, criaturas humanas? Kafka, quase patologicamente modesto que era, nunca imaginaria o quanto chegou perto de responder isso com sua imaginação e talento soberbos.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

Bloco ou não bloco: eis o São João.

Esse post será polêmico. Ok? Vamo nessa.

O São João de Estância-SE, assim como o São João da maiorira dos interiores Brasil afora, guarda (ou guardava, que é o que vamos discutir) algumas características em comum. Bastante ligados à vida rural, e a toda a cultura do campo de uma forma geral, fogos de artifício, comidas típicas a base de milho e amendoim, etc. A música, basicamente, trios compostos por sanfona, triângulo e zabumba. Com o tempo, o São João se modifica e vai se "industrializando", ganhando as cidades, atigindo um público maior. A música sofre grandes transformações, mas não vamos entrar nessa questão, pois rende muita discussão.


Hoje em dia, há um caloroso debate a respeito da autenticidade que há na presença de trio elétricos puxando "blocos juninos" nas ruas da cidade durante este período. O evento se assemelha muito ao carnaval baiano, salvo o fato de que o repertório é composto por músicas juninas, tocadas num ritmo mais acelerado, mais apropriado para se "dançar solto" e em movimento, o que acaba por revoltar ainda mais alguns estancianos, que argumentam que isto é um ato de "nulidade cultural", um gesto de pura inautenticidade, etc.

Sendo bem direto, acredito este posicionamento extremamente problemático, visto que representa um discurso descaradamente conservador. "São João bom mesmo era o do meu tempo!". Particularmente, esse tipo de fala me desagrada e preocupa profundamente, já que cultura sempre foi e sempre será uma longa cadeia de adaptações, traduções, hibridizações de comportamento, valores e costumes.

O professor da UnB Roque Laraia em seu Cultura: Um Conceito Antropológico, citando o  antropólogo inglês Edward Tylor e seu Primitive Culture (1871), afirma que "A diversidade é explicada (...) como o resultado da desigualdade de estágios existentes no processo da evolução." Talvez não seja muito ousado tentar traduzir essa ideia para a nossa realidade e para o nosso tempo, dizendo que este processo de transformação é o que se espera de uma determinada sociedade que se entende como tal e que se comunica com outros grupos sociais de cultura diferente. A noção de que uma se encontra num ponto mais avançado ou atrasado de evolução é que é ultrapassada, mas ideia de que qualquer povo sofre constante influência de outros meios é inegável! E é absolutamente normal!

Por sua vez, Stuart Hall, em seu A Identidade Cultural na Pós-Modernindade, postula que a identidade cultural do indivíduo é um conceito cada vez flutuante e variável. No mundo contemporâneo, pós-moderno e globalizado, é inconcebível pensar em uma cultura nacional pura, intocada e totalmente fincada em suas raízes. A nossa cultura, assim como no mundo inteiro, é um exemplo disso. O que é o tal "São João de raíz"? 

Bem, meu avô diria que São João mesmo é aquele da roça, ouvindo Luiz Gonzaga, dançando num chãozinho de terra pisada, dentro de um barraquinho, uma fogueira acesa, uma moringa com água fria, soltando balão, e diria que "São João na rua num tem nada a vê, não".

Meu pai diria que São João bom mesmo é que aquele na porta de casa, na cidade, ouvindo Alcymar Monteiro, tomando aquela cervejinha gelada, comendo milho assado, soltando só buscapé, porque balão causa incêndios.

Eu digo que me lembro do São João em casa, o tal "São João de rua", mas a minha raíz de São João, a minha vivência verdadeira e autêntica de São João é no Forródromo, ouvindo Calcinha Preta, Painel de Controle e Mastruz com Leite, me apertando no meio de 20 mil pessoas. Isso, pra mim, é São João.

Um grande número de pessoas deve ter achado um grande absurdo o carnaval ter saído dos saudosos bailes em pequenos salões ao som das velhas marchinhas, e se transformado no monstro econômico que é o carnaval das escolas de samba do Rio, ou nos grandes blocos baianos de Axé Music. No entanto, hoje em dia, já é consenso que não há nada tão "genuinamente carnavalesco" do que tudo isso.

Da mesma forma, daqui a dez anos, quando o Xamêgo de Menina estiver completando '20 anos de avenida', nossos filhos estarão absolutamente convecidos de que São João de verdade é bota no pé, calça e abadá! E de fato será!

Então, quando se diz "Isso é lá São João?!" eu pergunto: "Para quem?!". Da mesma forma, quando se fala em raíz, deve-se relativizar o quão fundo vai essa raíz. "Tem que voltar às origens". Ok. Origens de onde? De quem? Onde estão as origens? No lançamento de Dança da Moda nos anos 50? Na chegada da sanfona ao Brasil nos anos de 1800? Ou nos bailes da nobreza européia séculos atrás?


 A cultura não regride. Por mais que os gostos pessoais e o discurso engessado de grande parte da sociedade tente ignorar ou ir contra este fato, as diferentes culturas se comunicam e se rearticulam. E ao passo que nossa identidade não está eternamente petrificada num estado permanente, não se pode ignorar que, quer nós queiramos ou não, o São João se move! No caso de Estância, literalemente...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Como criar seu próprio épico.

Fazer um filme sobre um herói destemido que enfrenta um perigo inimaginável sem cair na mesmisse é um desafio mais inimaginável ainda. Ver uma superprodução hollywoodiana trazer para as telas uma adaptação de alguma estória da mitologia grega sem perceber os mesmos caminhos sendo percorridos de novo, então,  é mais difícil do que cavalo voar (e olhe que nesse filme tem um cavalo que voa! ¬¬). O filme acaba e você fica com a aquela sensação de "quero minhas duas horas de volta".

Ok. As quase duas horas de CLASH OF TITANS, que eu vi ontem, não são completamente perdidas. Mas chega perto. Diálogos fracos, algumas tomadas são de uma cafonisse lamentáááável, como diria o Zé Graça, toda a concepção visual do filme, bem como a direção de arte, tentam inovar demais e acabam criando uma versão real-action dos Cavaleiros do Zodíaco, nas cenas de morte estão lá todos aqueles diálogos afetados sobre honra e coragem e "eu paro aqui mas a sua jornada continua blá blá blá...", o monstro final que é ridicularmente grande (ok, ele é um titã, mas não precisava ser tão grande a ponto de poder ser considerado um lugar) que sempre morre de uma maneira vergonhosamente fácil, etc. A cena da morte da Medusa foi legal, mas acaba se afogando num mar de falas sofríveis, como a de Perseus antes de entrar na caverna da besta dos cabelos de cobra e olhos petrificantes: "Don't look that bitch in the eyes!" ¬¬ Sério? Uma saga grega? Don't look that bitch in the eyes?! Eu mereço isso?!

Não... fora outra coisa profundamente irritante é que todas as estórias de língua não inglesa, em todos os lugares da europa, em qualquer período, só se fala inglês britânico. Se a estória se passa na Segunda Guerra Mundial só com personagens alemães, na Itália renascentista, no extremo norte gelado, ou na Grécia dos deuses e titãs, não importa. Todos falam com um inglês londrino indefectível.

Por isso, amigos, resolvi fazer um guia para vocês que, de tanto bocejarem diante de todos os Arthur's e Hercules' da vida, resolveram fazer o seu próprio épico.


Primeiro de tudo, você precisa do herói. Ele precisa ser jovem e ainda não estar no topo da carreira. Isso é importante, pois o mainstream precisa de "carne nova" para ser a cara de um blockbuster. Esse rapazinho é teimoso como uma mula, tem um senso de correção moral de titânio e raramente sorri. Ele é meio grosseirão, mas é capaz de morrer por um grupo de caras que ele acabou de conhecer.


Toda essa retidão de caráter, ele herdou do seu pai, que era um trabalhador braçal muito humilde e muito obstinado a dar uma boa vida à família. Geralmente sorridente e até um pouco ingênuo, sempre morre tragicamente, o que pode ser a grande motivação para o personagem principal enfrentar horrores incalculáveis.





Falando nisso, o vilão precisa ser absolutamente imprevisível. Ele fala calmamente, se move gentilmente e nunca se exalta. Este é um personagem difícil, pois por alguma razão, sempre se espera dele uma grande novidade visual e estlística. Nunca do herói. E em Clash of Titans, ele está bem legal. Nada extraordinário, mas a concepção do personagem é muito boa. As cenas dele surgindo e indo embora são grande parte da graça do filme.



A guerreira sexy e ousada também é importante. Há sempre uma tensão sexual entre ela e o herói, que não vai dar em nada, porque um deles vai morrer. Provavelmente ela. Ela é mais madura e tem sempre ideias melhores que o herói, o que o irrita. Toda voluptuosa, ela não é nada indefesa e sabe lutar, ao contrário da...




... princesa delicada. Essa moça chora. Ponto. Ela derrama rios durante o filme todo. Tem que ser played por uma atriz que dá nojo de tão linda e que tenha cara de boa moça. Ela geralmente encerra boa parte das motivações dentro da trama. No caso de Clash of Titans, nem tanto, mas na maioria dos épicos, galáxias se evaporam por causa dela.




Ao lado do herói, está o guerreiro badass mal-encarado e rude. O início do relacionamento deles é sempre péssimo, e você é forçado a sentir antipatia por ele. Não se engane: apesar de ter sido obrigado por algum superior a empreender essa batalha ao lado do herói, no decorrer do filme, esse lutador mais experiente e técnico se fragiliza com a causa e se revela um grande homem, blá blá blá... e geralmente morre (sempre com muito estilo) para salvar a pele do herói, que honrará seu trágico fim.



 Ao lado deste, um guerreiro atrapalhado, fanfarrão e/ou beberrão, ou no mínimo, menos compenetrado que os outros, que é o caso deste da foto. Ele será o alívio cômico da trama, lutando de maneira atrapalhada, fazendo piadas incovenientes, dormindo de boca aberta, ou mostrando a bunda para uma criatura de 10 metros. Geralmente é ele quem diz "Oh, shit" quando um grande perigo apareçe.



Sendo levado de brinde com o bando, está lá um garotão estabanado que é pura paixão. Louco por adrenalina, ele faz algumas m***** que comprometem a segurança do grupo. Geralmente fala muito, e é aquele que "tem cara de quem vai ser o primeiro a sambar" desde o início do filme. Não raro, o sentimento paterno que o herói cria por este abestalhado não será o bastante para tirar o dele da reta.





Algumas outras figurinhas tarimbadas são bastante frenquentes também, mas são secundárias e portanto, opcionais. Mas se você quiser acrescentar o companheiro animal do herói, ou o mosntro/criatura hostil que acaba se tornando amigo do grupo logo no início do filme, ou o sub-vilãozinho chato que fica aparecendo inúmeras vezes fazendo você dizer "puts, de novo esse cara? mata logo!", ou o louco morimbundo que grita profecias no meio da rua, ou mesmo o pai da princesa (geralmente, um coroa chato metido a eloquente e que só fala/faz bobagem), fique à vontade - o épico é seu.

Só lembre de colocar um nome legal no seu filme, e nada como Clash of Titans, num filme em que apareçe apenas 1 (um) titã que por sinal não luta contra outro em momento algum. Mas também, eu assumo minha culpa - me desculpe Louis Leterrier, mas o que é que eu podia esperar de um cara que já fez pérolas como O Incrível Hulk e Cão de Briga? Respondendo a pergunta lá do 2º parágrafo, eu mereço, sim. Eu mereço.  :\

domingo, 24 de abril de 2011

O tal gosto musical

Escolher um disco favorito não deve ser fácil. Pra mim, nunca foi. Na verdade até hoje não sei se tenho um. E sobre isso, sempre refleti muito. Uma coisa que hoje eu tenho como fato é que os motivos pra você gostar de uma música são vários, e muitos deles alheiros à música em si. A repetição, por exemplo, é uma delas. Não quero entrar nessa scientifc bullshit de ficar dizendo que se ouvir algo 1000 vezes, aquilo vai se tornar agradável. Não, porque até agora, fica cada vez mais irritante cada vez que eu ouço... deixa pra lá. Mas acredito sim que se aquela música se encaixa minimamente em suas referências culturais, seus valores estéticos, depois de um tempo, você estará pelo menos acostumado àquele disco, àquela música, ou o que quer que seja. E daí pra gostar, um pulo.

E é óbvio para todos que o gosto de cada um influencia muito nessa escolha. Existe uma diferença grande entre o que você gosta e o que é bom de fato. Mas o que é bom de fato? Eu particularmente acredito que existe o indiscutivelmente bom, independendo se eu gosto daquilo ou não, assim como o indubitavelmente ruim. Por exemplo, mesmo sabendo que os caras não sabiam tocar e que muita coisa deles é brega pra caramba, eu adoro o... ah, deixa pra lá - rsrs - a discussão não é esta.

Então assim, independentemente do que é bom ou ruim, o meu tipo de música favorito tem que ter melodia bonita e tem que ter swing! Sim, é basicamente isso. Mas talvez o que eu entendo por swing seja um pouquinho diferente do que outra pessoa entende, enfim... Mas quando falo isso, estou falando da composição em si. A semente da canção, a música nua. Imagine alguém tocando We Are The Champions do Queen só voz e violão, ou voz e piano e, mesmo assim, ela continuar sendo uma canção fenomenal, mesmo sem o poder da voz de Fred Mercury e sem aquele arranjo de guitarra antológico de Brian May. É disso que estou falando. E quando vem uma banda e põe um arranjo ótimo em cima, aí eu digo que sou . Inclusive, este é outro fator : arranjo! Nele, não vou me estender muito pra não ficar dois dias dando minha opinião - rs.

Já a harmonia de uma música (a sequência de acordes) é algo extremamente importante e eu acho muito, mas muito bonito mesmo, quando eu ouço uma música de Tom Jobim, por exemplo, eu vejo como ele consegue ser extremamente sofisticado, complexo, e ainda assim, soar bonito, agradável, etc. Mas não é isso que me conquista na música. Uma vez eu vi Seal dizer que o ele preza muito nas músicas dele são a melodia e o ritmo. E eu pareço muito com ele, nesse sentido. E olha, eu tive a sorte de ter encontrado um letrista soberbo que é Miguel Viana, e de ter tido algumas parcerias com outros caras de muito talento, como Casé Uchôa, Thiago Nuts, etc. E não é que eu não dê valor a letras, pelo contrário. Mas elas, como eu já disse, não são de fato o que eu observo logo de cara numa canção.

E algo engraçado que acontece é que as pessoas não raramente confundem letra com música. "Essa música é muito besta", "essa música é ruim - só tem palavrão", quando na verdade estão falando da letra. Ora, mas não é uma coisa só? Não, senhor - rs. Vejo pessoas que falam mal do Pagode atual porque as letras são demasiado sexuais, muito escrachadas, etc, sendo que grandes nomes internacionais da música, como Marvin Gaye, James Brown e outros já punham safadeza pra caramba em suas letras! Entre as bandas dos Jovens Protestantes de Plantão, o Red Hot Chili Peppers, por exemplo, que raramente faz uma música que não tem uma letra "doidona".

Não sei exatamente quando isso aconteceu, mas acredito eu, na base do achismo mesmo (o blog é meu eu faço o que eu quero aqui - rsrs) que depois da geração da Tropicália, ou talvez um pouco antes, em que as letras começaram a se politizar mais, até pelo próprio contexto político da época, as mudanças socias que vinham ocorrendo no Brasil, se consolidando de vez mesmo com o surgimento de (algumas) bandas de rock nos anos 80 (os rock brasileiro dos anos 70, até onde eu conheço, era muito mais ligado a outros aspectos musicais que não este) que traziam letras muito "sociopoliticamente engajadas" à luz do mainstream, os exemplos você já sabem de cor.

E como disse antes, não é que eu ache isso irrelevante, só não acho que seja tão imprescindível como sugerem por aí. O que eu acredito mesmo é que a letra, antes de tudo, precisa ser bem feita. Se ela trará uma reflexão sobre a vida, se é uma letra de protesto político, se é uma letra de amor, ou com um assunto incomum, ou até mesmo cheia de abstrações, não importa. O que importa é ela ser bem feita. Quando "decidi" isso no meu conceito de música popular, tudo ficou melhor. Por isso eu adoro da letra de Doidisse de Djavan, que pode ser considerada uma letra romântica, algo que sempre foi tratado por ele com muita competência; acho fantástica a letra de Killing in the Name de Rage Against The Machine - um soco no estômgado; acho um barato as letras de Carlinhos Brown que dizem coisa com coisa como a de Garoa (gravada por Simone) e Uma Brasileira (dos Paralamas); a letra de Bell Bottom Blues de Eric Clapton, que é a maior dor de cotovelo; dentro da música mais popularesca do Brasil (eu não tenho medo de soar elitista), o tal Forró moderno, no Pagode eu ouço sempre letras divertidíssimas, como aquela sobre uma garota que "é problemática, toma conhaque e quebra cadeira!" - rsrs, pois é.

Essas letras só tem uma coisa em comum: dá pra notar que foram feitas por alguém que teve talento para chegar àquele resultado, e o mais importante, foram feitas de uma forma musical! E isso não é tão óbvio quanto parece. Tem letra de música que era melhor ser uma crônica, uma folha de diário (não, não curto muito a maioria das letras de Alanis Morissette), ou mesmo uma redação de um aluno de 4º série sobre a corrupção política no Brasil, tamanha a falta de maturidade pra tratar daquilo e ainda assim meter as caras! - rsrs. Letra de música tem que encaixar na melodia, no groove, e principalmente, não pode soar forçado! Essa é minha verdade de música.

Porém, o tipo de letra que tem mais me fascinado ultimamente (há bastante tempo já, na verdade) é aquele tipo de letra que fala de coisas diferentes. O amor, as injustiças do mundo, a alegria de festejar são fontes infinitas de inspiração (ok, isso foi brega), mas existem dezenas de coisas diferentes sobre as quais falar numa letra (ia dizer milhares, mas pensei melhor - rsrs). E um vício que eu acho que o ouvinte de música tem que perder, é dar finalidade à música, e por conseguinte, às letras delas. Música para beber, música para ouvir com atenção, música para relaxar... gente, música é música! Ponto. Então se uma letra fala sobre um grupo de pessoas atravessando um deserto gelado, não vamos questionar a "importância" disso! Letra de música é arte antes de qualquer coisa. E é uma parte dela que não é nem necessária para que a música exista, como todos sabemos. Se a estória desse grupo tentando sobreviver no gelo não te interessa, o relevante é como se fala disso. É aí que a arte reside. Não no o quê ou no por quê, como diria o professor Roberto Bezerra, e como provavelmente concordarão os amigos ufizenses - rsrs.

E um cara que sempre teve isso, e pareçe que vai ficando cada vez melhor com o tempo, é uma figura gigante na música popular americana: Paul Simon. Sendo bem honesto, este texto era pra ser sobre ele - rsrs. Um disco dele, na verdade, que às vezes eu acho ser o meu favorito. Vai ficar para a próxima postagem de música - rsrs. Sem mais por hoje, vamos ouvir música! Sempre com outros ouvidos...  :)

terça-feira, 5 de abril de 2011

O Big Brother está te vigiando! - A origem do Grande Irmão

Tá... ok... eu sei que o título é apelativo e serve apenas para chamar atenção para o texto. Foi de propósito, foi mal. A razão, no entanto, é nobre.

Cada vez mais eu tenho a sensação de que se for pra passar (não perder) tempo com literatura ficcional, que valha a pena! Pelo menos tem sido esta minha postura de uns tempos pra cá. E 1984 é um exemplo de literatura ficcional que realmente vale a pena. Tudo bem que é muito fácil chegar aqui e dizer que um clássico gigante como esse é uma boa leitura. Quando George Orwell o escreveu em 1948 (48, 84, sacou?), dois anos antes de morrer, talvez ele não tivesse consciência das proporções que a obra fosse tomar. Ou talvez até, pensando bem, tinha sim, dada a temática da estória e o momento político mundial em que ele foi lançado, em 1949.

Conhecemos Winston Smith que trabalha em um dos ministérios de um regime absolutamente totalitário, no futuro distante de 1984. O Partido, único e permanente, governa Oceânia com um nível de opressão inimaginável. Oceânia, inclusive, é o nome que recebeu a união de vários antigos países formando um super bloco geo-político, que disputa eternamente uma faixa territorial (o norte da África, extendendo-se pel sul da Europa oriental) com outros dois grandes blocos, a Eurásia e a Lestásia.

Esta é apenas uma pequena parte da vasta realidade que Orwell cria em seu romance: há a Novafala, língua criada pelo Estado para reduzir o Inglês a apenas termos extremamente indispensáveis para a comunicação do Estado; recursos tecnológicos que soariam bastante engenhosos para seu tempo, como as teletelas, espalhadas por toda parte, inclusive dentro da casa de cada cidadão, através das quais as pessoas eram vigiadas constantemente pelo Grande Irmão (no original, Big Brother, figura patriarcal simbólica do Partido); as técnicas de Duplipensamento que permitem ao Estado mudar o passado e as noções mais profundas de realidade, através da violação de arquivos oficiais e notícias antigas; entre outros vários elementos, todos de um alto nível de criatividade.

Winston não consegue conter dentro de si um sentimento de revolta contra o Partido, o que o coloca em extremo perigo, pois como ele próprio já deixa claro desde o início do livro (pra que nós não alimentemos quaisquer esperanças de que ele chegue a triunfar - rsrs), "o pensamento-crime não leva à morte, o pensamento-crime é a morte". Não há como escapar - agora ou depois, se você for subversivo, mesmo que a um nível microscopicamente particular, você vai ser descoberto e isso significa a morte, sem qualquer possibilidade de dúvida. Seja sendo pego comprando um diário num bazar ou tendo suas micro-expressões faciais de hostilidade lidas pela teletela, você vai ser descoberto.

Deu pra sentir o drama? Tenso, né? Tudo começa a se descontrolar mesmo quando Winston se descobre loucamente apaixonado por uma colega de trabalho. Sua paixão se divide entre o desejo sexual avassalador que ele sente por Julia e sua vontade inexplicável de ir de encontro ao Partido. E isso me levou a uma reflexão inevitável, que certamente foi intencional da parte de Orwell: levando-se em conta o contexto social de repressão extrema e perturbadora em que este indivíduo vive, até que ponto estes sentimentos podem se confundir? Até onde a atração fatal (nossa, que brega ¬¬) que Smith sente pela voluptuosa Julia é apenas um reflexo de sua transgreção, de seu ímpeto de corromper as regras do Estado? E até que ponto sua vontade de se rebelar, todo seu engagamento político alimentado secretamente são apenas um reflexo de sua sexualidade reprimida por um regime que não permite qualquer tipo de desejo genuíno entre as pessoas? (...) Freud, sempre ele... ¬¬

Outra reflexão subjacente a esta: falando em "ímpeto", como alguém completamene inserido desde sempre, num mundo opressor, que instrui à força todas as pessoas a serem cegamente obedientes ao governo (e com sucesso), pode sentir qualquer vestígio de revolta? Certo que Winston se lembrava remotamente de um passado onde o mundo que abrigava sua infância ainda era o mundo que conhecemos, e essas lembranças, esses traços de afeição (sentimentos criminalizados pelo Partido) podem ter sido a semente da transformação dele. Contudo, essa observação não impede o leitor de se perguntar: existe de fato algo genuíno em nossa natureza, ou o homem é mesmo completamente um produto do meio? Existe de fato, por exemplo, um "impulso natural de justiça" tal que consiga promover em nós uma mudança drástica de comportamento, em momentos de extrema depravação da liberdade individual, mesmo que aquela tenha sido a única realidade que aquele sujeito já tenha conhecido?

Pra mim, 1984 atinge o ponto máximo de profundidade filosófica, e ao mesmo tempo de inventividade literária quando Winston Smith, já nas garras do Partido (eu disse que era inevitável, não reclame do spoiler), tem sua mente completamente despedaçada pelas sessões regulares de tortura física e mental, comandadas pelo temível O'Brien (glacial e cirúrgico em suas colocações). O que é a realidade, afinal? O mundo a nossa volta, nosso passado, as lembranças, tudo isso não é fruto de nossa percepção? A realidade não é, toda ela, um produto de nossa perspectiva? Então controlando-se a mente humana, não controla-se a realidade? Pra nós é fácil dizer "Ora, é claro que não! Tudo aquilo que existe está posto, e isso não dependente da minha vontade", mas imagine-se preso a uma sociedade totalmente diluída nesses processos de deturpação coletiva. Não é tão fácil. :/

George Orwell
Os americanos, na época completamente envolvidos em disputas políticas contra a União Sovética, receberam 1984 como uma crítica ferrenha ao regime totalitário stalinista. O livro, porém, metralha impiedosamente qualquer tipo de regime político absoluto que possa haver. Quando ainda bem antes de ser pego, Winston ouvia em seus sonhos premonitórios a voz grave e gélida de O'Brien dizer "Ainda nos encontraremos no lugar onde não há escuridão", eu entendi que ali, George Orwell, ele próprio, mandava subliminarmente seu recado de esperança para quem quisesse ouvir, apesar do final pessimista da estória. De que mesmo sob o domínio impiedoso do Big Brother, as grandes massas sempre serão mais fortes para superar a pobreza nefasta da ignorância e da superficialidade. (...) Sim, a ambiguidade foi intecional - rsrs.

Um pouco ingênuo? Talvez. Pelo menos nos leva a nos perguntar qual tipo de repressão vivemos hoje. De qualquer maneira, eu prefiro não perder as esperanças, embora o mundo que Orwell queria para seu pequeno filho quando se preocupou em escrever essa crítica social super sagaz, não era bem esse de hoje. Eu sou pai, eu sei bem como é.

sábado, 26 de março de 2011

Falange - Tudo nessa vida pede solução.

Tocando na praia do Abaís, em maio de 2010,
depois de anos sem tocar juntos.     
Se tem uma sorte que eu tive na vida foi ter começado na música tocando em banda. Já tocando "valendo". Sem querer usar aquele tipo de discurso de "ah, no meu tempo", mas realmente, no meu tempo (e eu só tenho 25 anos), as pessoas ainda aprendiam a tocar com outros músicos. Nós montávamos as bandas e saíamos tocando nos clubes, nos eventos escolares, etc. Hoje a gente oberva uma quantidade grande de garotos tocando horrores... dentro do quarto. O fato de ter aprendido a tocar guitarra tendo um execelente baterista sempre por perto foi decisivo. É o caso de todos nós no Falange. A gente aprendeu a tocar tocando. O que sabemos de música hoje, aprendemos um com um outro. Basicamente é isso, se eu fosse tentar resumir minha estória com a guitarra.

Engraçado que lá no início a gente não imaginava que ia precisar passsar por tantas transformações até chegar nesse ponto de agora. A primeira vez que eu subi num palco na minha vida, foi com Rodrigo Antônio na bateria. Minha amizade com João Antônio começou quando eu tinha uns 12 ou 13 anos. Marcell Veloso, eu conheci pouco depois disso, através de Pedro Danillo, que me ensinou, junto com Artur, os primeiros acordes no violão. E mesmo assim, a gente chegou a passar eras sem tocar junto. Rô viajou Brasil afora tocando batera, João se firmando como sideman em Aracaju, Marcell cuidando da carreira dele com os Boinas, eu cuidando da minha e meu disco que nunca sai... É, a vida tem um jeito de organizar as coisas que a gente nem sempre entende. Hoje com um certo distanciamento, eu vejo que tudo foi necessário. Tudo aconteceu como deveria. As pequenas conquistas, os desentendimentos, tudo tinha que acontecer para sermos o que somos hoje. E de outra forma, não teria sido bom. Então foi preciso. "O mundo fica fácil de entender quando se vê de longe", é verdade, mas retornar é bom.

     Tocando dentro da Microlins em 2000 e pouco.
Sim, DENTRO da Microlins.
Um apanhado: o Falange começou no início dos anos 2000 em Estância, quando eu, acompanhado na época por Rodrigo, João e Marcell, decidi montar um repertório de rock que apresentaria em uma série de shows em Estância. Durante as apresentações, porém, esta proposta foi se firmando dentro da banda e eu, que via meu trabalho autoral apontar pra outro rumo, decidi separar uma coisa da outra, e segui o meu início de carreira solo (que já tinha certa consistência) com outros músicos.

E o engraçado é que não havia razão aparente pra me ocorrer a ideia de voltarmos a tocar juntos, só que depois de tanto tempo sem se apresentar com os caras e a gente se vendo tão frequentemente, o pensamento surgiu. Em uma conversa de MSN, já tinhamos combinado repertório e dois shows. No primeiro, a gente já lançou uma música nova, Tudo Pede Solução. Tocamos algumas antigas e alguns covers. O show foi muito bom. E o mais legal é perceber que o Falange fica cada vez mais consistente. Vai adquirindo uma personalidade sólida. O repertório autoral tem crescido, a gente tem se visto mais, estamos projetando os primeiros passos - EP, algum video, talvez - e a empolgação tá luzindo na cara.

"Com fé força e honra, dá pra chegar mais longe", Falange!

Daqui pra frente é peito aberto e sol no rosto.